A Força da Comunidade

A Força da Comunidade – A Coesão Social como Base para o Desenvolvimento Socioeconômico de Comunidades Carentes
J. B. Pontes
Temos a convicção de que o desenvolvimento socioeconômico de sociedades carentes, a exemplo das que habitam o semiárido do Ceará, só ocorrerá por esforço delas próprias, por meio de um formato que os estudiosos têm denominado de economia solidária, essencialmente feita pelas forças das próprias comunidades. E para alavancar esse tipo de desenvolvimento é fundamental uma elevação da consciência das pessoas, para que todos entendam que só a união de esforços e a coesão social – ou seja, coletivamente – serão capazes de promover uma melhoria sustentável de suas condições de vida.
E o que é e o que será necessário para o desenvolvimento da economia solidária?
Uma economia solidária nada mais é do que um sistema de organização das forças produtivas de uma comunidade em forma associativa, caracterizada por práticas de autogestão solidárias, democráticas e humanistas. Se processa mediante a união dos esforços de, por exemplo, artesãos individuais ou pequenos produtores urbanos ou rurais para adquirir os insumos que necessitam; viabilizar e compartilhar os meios de produção e industrialização; aperfeiçoar as técnicas de produção para melhorar o produto final; e organizar um sistema de comercialização em melhores condições de competitividade.
Sem dúvida, só a coesão social será capaz de formar o chamado “capital social”, principal arma para o desenvolvimento de comunidades que não possuem capital financeiro. E ele surgirá a partir do momento em que todos se interessarem e passarem a discutir em conjunto a realidade e os problemas de sua comunidade, na busca de formas de superá-los coletivamente. Isto capacitará a comunidade a participar ativamente de todos os assuntos de interesse público.
Portanto, primeiramente teremos que ultrapassar o individualismo – hoje muito arraigado na nossa sociedade – e difundir uma nova mentalidade baseada na coesão social: conciliação de interesses, diálogo cooperativo, solidariedade. Em outras palavras, teremos que ultrapassar a cultura do “levar vantagem em tudo” e nos conscientizar que a melhoria sustentável das condições de vida só ocorrerá quando agirmos coletivamente, com absoluto respeito aos direitos e interesses dos outros, exercitando rotineiramente os valores de equidade, fraternidade e concórdia.
Em seguida, é necessário criar as entidades adequadas ao desenvolvimento da economia solidária: as associações e as cooperativas. As primeiras mais apropriadas para a organizar e defender os interesses de determinado segmento da sociedade; e as segundas mais apropriadas à organização da produção, com foco no desenvolvimento econômico e social.
O sistema cooperativo constitui uma forma diferenciada de capitalismo, baseada em princípios e valores humanitários internacionalmente reconhecidos e praticados. Resumidamente, uma cooperativa é um empreendimento diferenciado: Não visa lucro para poucos, não concentra capital; pelo contrário, distribui a renda obtida de forma proporcional ao trabalho ou à participação de cada cooperado, assim como disciplina a distribuição e utilização do lucro gerado, que retorna aos associados, ou é destinado à geração de benefícios coletivos, ou, ainda, aplicado em melhoramentos e ampliações dos negócios da instituição. E mais, são os sócios que decidem coletivamente qual a alternativa deve ser adotada.
Não temos dúvida que um esforço comunitário dessa natureza será apoiado por várias instituições de incentivo e apoio ao cooperativismo/associativismo existentes no âmbito dos governos municipais, estadual e federal. No âmbito local, será importante conquistar a adesão de lideranças comunitárias e políticas, educadores, formadores de opinião e, de forma muito especial, das Escolas Técnicas, cuja participação e integração ao movimento é fundamental.
Temos a convicção que um projeto comunitário estruturado nos moldes de uma economia solidária, nos permitirá avançar não só na parte econômica – ao possibilitar maiores rendimentos para os que dele participam e, consequentemente, o aporte de mais recursos para movimentar a economia local –, mas principalmente no social, na cultura, na educação, na saúde e na distribuição da renda gerada.
Por tudo isto, parece-nos que o esforço para formação do capital social e reorganização da produção é urgente e imprescindível. E não existe alternativa: as pessoas precisam acreditar que são capazes de assumir o papel de promotoras do seu próprio bem-estar social.
Não devemos desconsiderar que há um longo caminho a ser percorrido coletivamente, cujo primeiro passo é promover/suscitar a discussão do tema. Mas é claro que é caminhando que vamos avançar e nos conscientizar sobre as vantagens, os obstáculos a serem superados e, afinal, decidir se queremos marchar na direção da economia solidária.

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